terça-feira, 29 de setembro de 2009

Biografia do Metallica Por Debbie Alan Hetfield



PARTE 1
Automaticamente quando pensamos no nome Metallica, duas associações vêm direto à cabeça: a primeira é a fortuna acumulada pela banda nos seus mais de 20 anos de história e os diversos paradigmas quebrados por alguém que investe em um som pesado (se a banda ainda pratica esse som é uma outra história mas efetivamente, até pelo menos 1994, praticava).

A segunda associação, aproveitando o gancho, é justamente toda a mudança que caracterizou o Metallica nos últimos anos (ou na última década), seu flerte excessivo com a MTV, sua mudança sonora, a atitude, os problemas e brigas internas.

Escrever sobre o Metallica é uma grande paixão mas também uma baita responsabilidade. Em primeiro lugar porque eles são os caras que me levaram ao Heavy Metal há cerca de 15 anos e seguem imbatíveis como a melhor banda de Metal de todos os tempos, na minha opinião. Não gostar da banda pelo que eles fazem atualmente é uma atitude compreensível mas deixar de respeitá-los é uma tolice afinal, o “Kill´Em All”, “Ride The Lightning”, “Master of Puppets”, “...And Justice for All” e o “Black Álbum” (para não contar o “Load” que também considero um grande trabalho) são, no mínimo, álbuns revolucionários e fundamentais em seus contextos.

Para fugir do lugar comum, o objetivo desta matéria é deixar um pouco de lado a polêmica carreira da banda após a consolidação do sucesso, afinal essa parte da história todo mundo sabe e explorar os primórdios do Metallica, suas raízes e a rápida ascensão ao trono da Bay Area de San Francisco até o lançamento do “Kill´Em All” em 1983. Pessoas que começaram com covers da NWOBHM e abriram as portas para o movimento de uma das mais importantes vertentes do Heavy Metal nos anos 80: o Thrash Metal.

A história do Metallica, ao contrário do que muitos pensam, não começou na costa Oeste dos Estados Unidos e sim do outro lado do oceano atlântico, na capital da Dinamarca, Copenhague, onde nasceu o baterista Lars Ulrich em 26 de Dezembro de 1963, filho do razoavelmente bem sucedido tenista Torben Ulrich.


Torben ganhou alguns títulos de menor expressão no circuito e classificou-se em 1976, aos 48 anos, como o melhor tenista na categoria “sênior”. Apesar da vida de esportista, o patriarca dos Ulrich sempre apreciou a boa música e manteve ligações estreitas com o Jazz e o Rock, tanto que ainda nos anos 50 foi proprietário de uma casa de Jazz em Copenhague onde também tocava com sua própria banda.

O pequeno Lars conviveu diretamente com os dois lados do pai: ainda criança se mostrava muito promissor com as raquetes e ganhou alguns torneios infantis, oscilando entre os números 10 e 15 do ranking infanto-juvenil dinamarquês. Mas a sua vida mudaria totalmente em fevereiro de 1973, quando Torben hospedava alguns amigos hippies em sua casa e eles resolveram assistir a uma apresentação do Deep Purple em Copenhague. Um dos amigos desistiu em cima da hora e o nosso Lars, então com 9 anos de idade, pegou o ingresso que mudaria a sua vida.

Logicamente, uma criança de 9 anos não entende muito bem o que se passa em cima do palco de um show de Rock mas Lars hipnotizou-se pelo modo como o guitarrista Ritchie Blackmore jogava sua guitarra para o alto e fazia seus solos.

Nos dias seguintes à apresentação, Lars começou sua coleção pessoal de discos com o Fireball do Deep Purple e em pouco tempo se tornou um daqueles fanáticos colecionadores de itens do Black Sabbath, Thin Lizzy e qualquer banda que soubesse unir os primórdios do Heavy Metal com a veia Blues. Sempre que podia, Lars acompanhava o pai nas viagens do circuito de tênis e, desta forma, também comprava discos raros e aumentava a coleção com exemplares de toda Europa.

Apesar de toda a paixão crescente pelo Rock, a primeira tentativa com instrumentos musicais só aconteceu em 1976 quando o jovem Ulrich ganhou um kit de bateria de presente dos seus avós. No começo ele gostou de seu novo “brinquedo”, mas com o passar dos meses Lars empenhou-se (por vontade – ou imposição - dos pais) a seguir carreira como jogador de tênis profissional.

Como a Dinamarca não oferecia muitas oportunidades de crescimento ao filho, Torben mandou Lars para treinar nos EUA em 1979, primeiro para uma renomada academia de tênis na Flórida.

Lars se dedicava ao esporte com duros treinamentos diários de 8 horas, mas também não esqueceu da velha paixão em colecionar discos de Rock e aproveitou sua viagem aos EUA para adquirir alguns lançamentos especiais que só saíram na terra do Tio Sam.

Ao regressar à Dinamarca para as férias, ainda em 1979, Lars conheceu um cara chamado Ken Anthony, proprietário de uma loja de discos em Copenhague e uma das grandes cabeças da cena Heavy Metal dinamarquesa. Ken apresentou o álbum Survivors do Samson (antiga banda de Bruce Dickinson) para Lars e despertou seu fanatismo para a New Wave of British Heavy Metal, a famosa revolução que apenas começava no final dos anos 70. A partir de então, o futuro baterista se tornou um ávido colecionador de itens desta fase tão importante do Heavy Metal e até hoje é um de seus grandes entusiastas.

Alguns meses depois, em Março de 1980, Lars voltou novamente aos EUA para disputar um torneio de tênis na Flórida e, durante uma folga, entrou em uma loja de discos atrás do último lançamento de uma banda chamada Triumph. Foi quando ele reparou em um disco muito interessante, com uma espécie de caveira em sua capa e quando olhou o verso, segundo suas próprias palavras: “a ilustração do Eddie poderia ser de qualquer uma das 100 bandas que surgiam a cada instante mas as fotos dos shows ao vivo na parte de trás da capa realmente me impressionaram”. Logicamente, o disco em questão era o primeiro do Iron Maiden. Ele comprou o álbum mas não pôde ouvi-lo até sua volta a Dinamarca em Abril pois não tinha vitrola no seu alojamento nos EUA.

Assim que voltou à Dinamarca, Ken Anthony trouxe mais uma jóia ao conhecimento de Ulrich, o álbum Wheels of Steel do Saxon.

Em setembro de 1980, a família Ulrich esperançosa da brilhante carreira no tênis (!) para o filho Lars, resolveu se mudar permanentemente para os EUA e compraram uma bela casa no sul de Los Angeles.

Mesmo longe da explosão da cena Heavy Metal, Lars continuou em contato por carta com seus velhos amigos europeus para saber das últimas novidades e guardava com ele uma espécie de agenda onde anotava o nome de todas as bandas que surgiam e os seus registros, mesmo que fossem apenas fitas demo, piratas de shows ou coletâneas com uma única música. Nessa lista estavam nomes como Angel Witch, Blitzkrieg, Jaguar, Holocaust, Raven, Witchfinder General, Sweet Savage, Savage, Praying Mantis e o Diamond Head, esta última provavelmente a sua banda preferida em toda a história e uma das grandes influências do Metallica.

Lars era tão viciado na banda que começou a trocar correspondências (lembre-se que não tínhamos Internet para facilitar a vida) com a mãe do vocalista Sean Harris, Linda Harris, também co-empresária da banda, a respeito das últimas novidades. Para completar, quando Lars soube que o Diamond Head faria uma turnê européia no verão de 1981, não teve dúvidas: graças à boa saúde financeira de Torben, pegou um avião para assistir todas as apresentações da banda em solo inglês. Ainda não satisfeito, após assistir ao primeiro show, Lars conseguiu acesso aos backstages com Linda e impressionou a todos com informações que nem os próprios integrantes do Diamond Head sabiam (graças, novamente à dona Linda). O resultado é que o futuro baterista passou uma semana na casa do vocalista Sean Harris e mais uma semana na casa do guitarrista Brian Tatler. Aliás, os dois foram juntos assistir ao famoso festival Heavy Metal Holocaust encabeçado pelo Motörhead.

Essa convivência foi muito importante na vida do futuro criador do Metallica, afinal Lars, pela primeira vez, tinha noção de como funcionava uma banda, as discussões internas e o trabalho de composição das músicas. Brian ainda se lembra como era o jovem Ulrich: “uma coisa que me impressionava era a forma como ele gastava dinheiro em discos. Eram centenas de Libras, mesmo sendo apenas uma criança, ele ia a lojas de discos e comprava pilhas e pilhas de coisas da NWOBHM (...). O mais engraçado é que ele nunca mencionou montar uma banda e não estou muito certo se ele era capaz de tocar bateria até então.” Após semanas convivendo com seus ídolos, Lars visitou sua cidade natal onde ainda teve tempo para conhecer alguns jovens na cena, o Mercyful Fate, e voltou para os EUA com a idéia fixa de montar sua própria banda.

A história de James Alan Hetfield é bem diferente do sonho vivido por Lars Ulrich. Nascido em 3 de Agosto de 1963 em Norwalk, Los Angeles, James cresceu em uma família tradicional da classe média norte-americana, a não ser pelo fato de que seus pais se divorciaram muito cedo.

Seu pai era um caminhoneiro e sua mãe, uma tradicional dona de casa que na juventude se destacou como cantora lírica. Ambos eram evangélicos rigorosos, daqueles que nunca faltam a uma missa e isso irritava o jovem James que começava a se questionar sobre a veracidade de seus valores, principalmente através de um fato por acontecer alguns anos depois.

Assim como Lars, James também era um fã de Deep Purple, e fora muito influenciado neste começo pelo seu irmão 10 anos mais velho, David, baterista em uma banda cover de Hendrix - The Bitter End - no começo dos anos 70. David usava a garagem da casa da mãe para ensaiar com a banda e quando ninguém olhava, lá ia o pequeno James brincar com os teclados.

Pela influência da mãe, esperançosa em ver o filho se transformar em um pianista clássico, James teve dois anos de aulas de piano durante o ginásio até que ela desistisse de seu sonho e comprasse para o filho uma guitarra elétrica de 15 dólares, afinal segundo as próprias palavras do futuro guitarrista e vocalista: “eu queria fazer barulho, não estudar teoria”.

A desilusão na igreja e a aproximação com o Heavy Metal, em especial o Black Sabbath e suas letras, causaram grandes problemas na adolescência de James, particularmente com o seu pai: um tradicionalista não se conforma em ver o filho desviar do caminho da fé religiosa. Mas o pior aconteceu quando a mãe de James adoeceu de câncer algum tempo depois. Confiando na fé e nas orações como a única salvação, a família renegou todos os tipos de tratamentos médicos e o resultado foi o mais devastador possível: James perdeu sua mãe, por pura negligência familiar, aos 15 anos de idade.

O choque da perda foi enorme, especialmente pelos problemas já enfrentados com seu pai sobre a tal fé religiosa. James se isolou de seus familiares e amigos por bastante tempo e a relação com o pai nunca mais se normalizou. Os bons entendedores encontram referências ao acontecimento em diversas letras do Metallica nas décadas seguintes, especialmente “The God that Failed” e “Until it Sleeps”, músicas explícitas sobre o assunto. O trágico episódio também gerou um apelido para James na escola por sua atitude isolada: a criança mais raivosa do mundo.

Assim que pôde, James saiu de casa e passou a se dedicar integralmente a música ainda nos anos 70. O primeiro show que ele assistiu foi no famoso Long Beach Arena em 1978 para ver o Aerosmith e o AC/DC com o seu irmão. Na mesma época, James montou uma primeira banda chamada Leather Charm com alguns colegas do colégio, depois mudaram o nome para Obsession e tocavam nos colégios da cidade, sem grandes repercussões.

No Obsession, James escreveu as suas primeiras letras mas a pequena platéia que assistia às apresentações sempre preferia os covers, o que irritava bastante o jovem Hetfield, louco para alçar vôos mais altos. Os demais integrantes (os irmãos Veloz na bateria e no baixo e Jim Arnold na guitarra) preferiam se manter como uma banda de covers, afinal era o que agradava os fãs. Uma curiosidade do Obsession era o seu roadie principal: nada mais e nada menos que Ron McGovney, o futuro primeiro baixista do Metallica.

Após mudar de bairro e escola, James fundou sua terceira banda com os novos colegas, o Phantom Lord, com Hugh Tanner (escolhido por ser o único moleque da redondeza a ter uma guitarra Flying V), Jim Mulligan na bateria e, mais tarde, Ron no baixo. Muitos dos riffs das primeiras músicas do Metallica nasceram nesta fase do Phantom Lord. A banda, inclusive, foi a primeira onde James cantou e tocou guitarra ao mesmo tempo.

Com o passar dos meses, o Phantom Lord mudou de nome e voltou a se chamar Leather Charm com James deixando a guitarra de lado para se concentrar apenas nos vocais. Entre as músicas tocadas pela banda, a preferida era o cover de “Remember Tomorrow” do primeiro disco do Iron Maiden.

O Leather Charm ainda registrou uma demo antes de terminar no começo de 1980, mas essa gravação é daqueles itens quase impossíveis de achar e vale alguns milhares de dólares.

Em 1980, finalmente os caminhos de James e Lars se cruzaram quando o futuro baterista, antes de sua viagem para a turnê do Diamond Head, colocou um anúncio em um jornal chamado Recycler, em busca de headbangers para formar uma banda séria, que valorizasse o Heavy Metal e seguisse carreira no gênero. Sem vacilar, James Hetfield e seu amigo Hugh Tanner responderam ao anúncio e marcaram uma primeira jam na casa de Lars. James estava tão empolgado com a possibilidade de uma carreira que cogitou a hipótese de retomar o trabalho do Leather Charm com Lars na bateria dependendo do andamento do encontro.

Infelizmente, este primeiro contato foi um verdadeiro fiasco já que Lars, como baterista, ainda era um belo tenista. Totalmente desiludido, James aconselhou o falante Ulrich a abandonar as baquetas para o seu próprio bem, virou as costas e foi embora. Os dois só se encontrariam novamente quase um ano depois.

PARTE 2
Em 1981, logo após o retorno da Europa e da turnê inglesa com o Diamond Head, Lars acompanhou todos os shows de Metal e Rock que podia na Costa Oeste dos EUA e durante uma apresentação do Michael Schenker Group no Country Club de Costa Mesa, ele vestia uma camiseta do Saxon quando um headbanger chegou e perguntou curioso se ele realmente gostava da NWOBHM ou era apenas um modista de plantão. Lars deu uma aula de conhecimento sobre a cena inglesa e os dois conversaram bastante naquela noite sobre tudo o que acontecia. O banger em questão se chama Brian Slagel e é uma peça importante na história do Metallica para os próximos anos.

Slagel, na época, trabalhava em um fanzine chamado The New Heavy Metal Review e começou a planejar o lançamento de sua própria gravadora (que viraria a famosa Metal Blade) com uma compilação de várias bandas locais, um disco chamado Metal Massacre que pudesse abrir as portas para uma cena começando a surgir na Califórnia no começo dos anos 80. Lars viu nesse disco a grande chance de sua vida e encheu o saco de Brian para que ele reservasse uma faixa da coletânea para sua banda que nem existia ainda. Slagel meio na brincadeira mas contente com a empolgação do amigo, concordou, afinal parecia impossível aquele jovem dinamarquês trazer alguma coisa em tão pouco tempo (o lançamento do disco seria em questão de meses), começando do zero.

Sem perder um minuto, Lars se lembrou daquele jovem garoto cheio de espinhas e sonhos que conhecera alguns meses antes, o tal James Hetfield, e entrou em contato em 28 de Outubro de 1981 com uma oferta irrecusável, afinal, eles teriam finalmente um espaço para a divulgação do trabalho, que para falar a verdade sequer tinha começado. James aceitou montar a banda e gravar alguma coisa para o Metal Massacre mas torcia muito para que durante o último ano, Lars – o tenista, tivesse treinado bastante seus dons na bateria.

Sem dinheiro para grandes investimentos, os dois decidiram gravar uma música simples chamada Hit The Lights (baseada em um riff composto por James e claramente influenciada pela letra de Shoot Out The Lights do Diamond Head) em um gravador barato no porão da casa dos Ulrich. Lars ficou na bateria, James fez os vocais, tocou baixo e a guitarra base, enquanto seu amigo, Lloyd Grant – um guitarrista negro com influências mais voltadas ao Blues - fez os solos. A idéia inicial por sugestão de Brian, era apenas James tocar as duas guitarras fazendo um overdub (ou seja colocando o som de uma guitarra por cima da outra e enriquecendo a base durante os solos) mas os primeiros experimentos não deram muito certo e James chamou Lloyd por este ser um guitarrista mais voltado às improvisações.

Brian aprovou a gravação e até se surpreendeu com o potencial dos músicos mas uma grande dúvida pairou no ar quando ele pediu o nome da banda para colocar no disco. Uma coisa tão óbvia e ao mesmo tempo tão esquecida por James e Lars: afinal, qual era o nome da banda?

Antes de chegar ao nome definitivo, os integrantes pensaram em Thunderfuck (cortesia de um amigo de Lars chamado Tony Taylor), Helldriver (baseado na música do Accept), Leather Charm (ressuscitando o nome da antiga banda de Hetfield), Red Veg, Blitz, Steeler e Grinder (os dois últimos, vindos do Judas Priest) mas e o “Metallica”?

O nome “Metallica” como algo relacionado ao Heavy Metal, apareceu pela primeira vez em um livro chamado Encyclopedia Metallica, publicado pela Omni Press em 1981 e escrito pelos jornalistas ingleses Brian Harrigan e Malcolm Dome. O livro era um resumo da primeira década do Metal (1970 até 1980) e trazia uma lista das bandas com seus respectivos discos lançados até o momento.


Mas até o nome chegar à banda de Los Angeles, o caminho foi um pouco mais extenso e através de dois amigos bangers de Lars: Ron Quintana e Ian Kallen. Ambos lançariam um novo fanzine sobre Heavy Metal nas semanas seguintes em Los Angeles e fizeram uma lista de nomes para escolher em uma votação com os colaboradores do projeto. O nome vencedor desta eleição foi “Metallica” (provavelmente tirado do livro), mas Lars adorou a expressão e a força e, sem perder tempo, sugeriu que o nome Metal Mania soaria bem melhor para um fanzine. Quintana e Kallen, sem perceber as segundas intenções na história, concordaram e Lars afanou o nome vencedor para sua banda.

Com o nome e a música gravada, Slegel finalmente soltou o Metal Massacre, primeiramente com apenas 4500 cópias impressas e também contando com as bandas Steeler, Bitch, Malice, Ratt (sim, os próprios reis do Glam), Avatar, Cirith Ungol, Demon Flight e Pandemonium.

A primeira edição do Metal Massacre foi um sucesso e caiu no gosto dos headbangers norte-americanos sedentos por uma cena forte já que até então, os EUA apenas se rendiam ao talento do Heavy Metal europeu, especialmente inglês e alemão. O único problema do disco foi certa falta de cuidado na produção dos encartes pois registraram errado o nome da banda e dos integrantes. Metallica virou Mettallica e Lloyd Grant virou Llyod Grant. Infelizmente, Slagel não teve dinheiro suficiente para corrigir o erro na gráfica e o álbum chegou ao mercado assim mesmo.

Com a boa repercussão do Metal Massacre, o Metallica precisava estabilizar uma formação e fazer o máximo de shows para divulgar o seu material. Lars Ulrich continuou na bateria, James Hetfield, apesar de alguns dilemas particulares em não conseguir cantar e tocar ao mesmo tempo, seguiu como vocalista e guitarrista base; Para o posto de baixista, James chamou seu colega de quarto e velho amigo, Ron McGovney e para a guitarra solo, bom, nem James e nem Lars estavam satisfeitos com o trabalho de Lloyd Grant, mais voltado ao Blues de raiz e ele foi demitido em Janeiro de 1982. A idéia inicial era ter James apenas como vocalista e Lloyd faria dupla com outro guitarrista nos shows (estilo Iron Maiden), mas Grant saiu, James voltou às guitarras e, para complementar, a banda colocou um anúncio novamente no Recycler em busca de outro guitarrista. Vários candidatos se apresentaram mas um em questão chamou a atenção pela sua técnica e vontade, um cara chamado David Scott Mustaine. Aliás, Hetfield e Mustaine já se conheciam dos bares em LA.

Nascido em 13 de Setembro de 1961, Dave era uma figura conhecida da cena californiana pela sua habilidade nas 6 cordas mas também era bem lembrado pelas suas bebedeiras e exageros, isso sem contar do bico como traficante de drogas. No começo de 1982, Mustaine era guitarrista da banda Panic mas saiu assim que soube do novo emprego no Metallica.

O novo quarteto gravou uma demo (raríssima de encontrar hoje em dia) chamada Power Metal com uma nova versão de Hit the Lights e os covers de Let it Loose do Savage e Killing Time do Sweet Savage. Essa nova Hit The Lights é a que aparece atualmente nas reimpressões em CD do primeiro Metal Massacre. A versão original, um pouco mais lenta e menos trabalhada, você só encontra nas cópias originais impressas em vinil nos anos 80 mesmo.
O primeiro show oficial aconteceu em 14 de Março de 1982 no pequeno Radio City, em Anaheim para mais ou menos 75 pessoas. O set desta apresentação foi basicamente composto de covers do Diamond Head e outras bandas da NWOBHM mais a própria Hit the Lights. Os primeiros shows do Metallica destacavam o nervosismo dos integrantes da banda e a falta de experiência nos palcos com Mustaine estourando as cordas da guitarra com certa freqüência, Lars errando o ritmo na bateria e James esquecendo algumas de suas próprias letras.

O Metallica compensava o nervosismo e a ansiedade com muitos ensaios e boas composições novas. Mais uma vez, Brian Slagel confiou no potencial e deu uma força à banda: ainda em 1982, o Saxon, já uma banda conhecida, faria sua turnê de divulgação do álbum Denim and Leather nos EUA e tocariam 4 shows em um bar chamado Whiskey A-Go-Go, dois sets por noite. Slagel, já mais conhecido e respeitado na cena Metal da Costa Oeste pelo seu Metal Massacre (que depois virou uma série de discos), conseguiu para o Metallica a abertura dos dois shows no dia 27 de Março.

Na verdade essa história também tem uma segunda versão que nos conta sobre a amizade entre Ron McGovney e alguns integrantes do, então desconhecido, Mötley Crüe, mais precisamente Tommy Lee e Vince Neil. Por incrível que pareça, na época o Mötley ainda era uma banda de Metal e Ron, um dia conversando com os dois, comentou que o Saxon viria para Los Angeles e que eles estavam interessados em abrir esse shows. Lee e Neil comentaram que também gostariam de abrir mas que a banda estava crescendo demais, mas de qualquer forma eles conheciam a garota do Whiskey A-Go-Go responsável pelo agendamento dos shows, e dariam uma forcinha apresentando Ron. Com a popularidade do Crüe em alta, Ron agradeceu a ajuda e conseguiu mostrar a demo Power Metal. No dia seguinte, ligaram para o baixista e elogiaram muito o som do Metallica: eles conseguiram a disputada vaga para a abertura dos shows.


Era a primeira grande oportunidade ao vivo e foi a primeira vez em que a banda tocou algumas músicas que logo se transformariam em verdadeiros clássicos do Heavy Metal como Metal Militia e Jump in the Fire.

Brian Russ, hoje um senhor de 42 anos e criador do site BNR Metal Pages (http://www.bnrmetal.com), tem algumas memórias desta época da banda: “Em 1982, eu vivia no norte da Califórnia e o Saxon estava em turnê e tocaria em Los Angeles (mais ou menos a 6 horas de carro). Meu amigo estava louco para ir e queria que eu fosse com ele. Eu disse que não (provavelmente porque tinha de trabalhar, não lembro agora), e ele foi com seu irmão assistir ao show. Quando perguntei como tinha sido, ele disse que o Saxon foi legal mas achava que eu iria me interessar pela banda de abertura, que era o Metallica. Ele falou sobre o excelente guitarrista (Dave Mustaine – claro que nós não sabíamos os nomes até então), o “não tão bom” vocalista (James Hetfield - cuja voz ainda não era desenvolvida), e deve ter dito alguma coisa sobre o baixista (Ron McGovney). Se esse não foi o primeiro show do Metallica, foi um dos primeiros, talvez a primeira vez que eles abriram para uma banda grande como o Saxon. Eu ainda me arrependo de não ter ido àquele show.”

O setlist da primeira apresentação contou com Hit the Lights, Jump in the Fire, Helpless, Let it Loose, The Prince e Metal Militia. A segunda apresentação da noite contou com uma música a mais, o cover Sucking My Love. O detalhe destes dois shows, o primeiro com os 400 ingressos esgotados e o segundo com um público de 250 pessoas, é que Ulrich e Cia. não conheceram os integrantes do Saxon, trancados no camarim até a hora de subir ao palco, talvez algum estrelismo por parte dos ingleses?

A banda ainda não estava afiada, como lembra Slagel até hoje, mas em alguns meses uma fita pirata com a gravação destes shows se tornou a verdadeira coqueluche no circuito de troca de fitas cassete.

O começo era promissor e a banda aproveitou para tocar no maior número possível de bares em Los Angeles. Para consolidar o momento, Lars guardou uma grana e fez alguns milhares de cartões de visita já com o famoso logo desenhado por Hetfield (o Metallica com o “M” e o último “A” pontudos) e os dizeres “Power Metal” (idéia de Ron) embaixo junto com o número de telefone para contatos da banda.

O set dessas primeiras apresentações contava com as mesmas músicas do show do Saxon mais várias covers do Diamond Head e a música Blitzkrieg da banda inglesa de mesmo nome. Sobre esta última, como ninguém conhecia os ingleses e todos adoravam a composição, Lars dizia que era do Metallica mesmo.

O fanatismo de Lars Ulrich pelas bandas da NWOBHM gerou situações curiosas nesses primeiros shows já que muitos covers apresentados no palco ainda não tinham uma versão oficial de estúdio pelos seus grupos originais. A confusão acontecia porque Lars puxava muito material de fitas demo, singles e EPs, às vezes até mesmo caseiros das bandas ou disponíveis apenas no circuito de troca de fitas, sem uma gravação oficial. A música Let it Loose do Savage, por exemplo, só apareceu pela primeira vez em disco em 1983 quando a banda lançou o Loose ´n´ Lethal mas o Metallica já tocava o cover em shows desde meados de 1982. A já citada Blitzkrieg só apareceu oficialmente pela banda de mesmo nome em 1985 mas o Metallica também a tocava desde 1982 e pior, os californianos lançaram uma gravação oficial da música primeiro, em 1984 juntamente com o single de Creeping Death, o famoso Garage Days Revisited (não confundir com o álbum completo de covers lançado em 1987 chamado Garage Days Re-revisited).

Esse fato gera algumas contradições com o caso Napster envolvendo a banda quase duas décadas depois. Será que as fitas que Lars trocava com seus amigos na época também não podem ser consideradas pirataria?


O pior caso, com certeza, aconteceu com Killing Time. Essa era outra cover que o Metallica tocava nos shows desde 1982 mas a versão oficial pelo Sweet Savage, só deu as caras em...1996 (não é brincadeira!).

O sucesso nos bares do underground chamou a atenção da imprensa local. O Los Angeles Times escreveu ainda em 1982 que o Metallica era a melhor coisa surgida no Rock em um longo período.

Apesar desta ponta do iceberg, a banda ainda não agradava a todos com seu som inovador, rápido e cru. Em um show no antigo colégio americano de Lars, o Backbay High School, o Metallica conseguiu esvaziar o salão onde tocavam em pouco mais de meia hora.

Em compensação, uma outra noite a banda foi convidada para abrir o show dos suíços do Krokus, de passagem por Los Angeles. Na última hora, o Krokus desistiu da apresentação sabe-se lá por quê e o Metallica teve de lidar com uma platéia enfurecida pela falta de respeito dos europeus. Mas James, Lars, Dave e Ron não se abateram e fizeram um show mágico em um setlist com várias músicas, então inéditas, e alguns covers. A platéia não acreditava no que via em cima do palco e a recepção foi tão boa que esta noite ficou conhecida como “A Noite do Metallica”, a primeira vez em que a banda realmente superou todas as expectativas e conquistou seus primeiros fãs.
PARTE 3
As coisas caminhavam bem no primeiro ano do Metallica e o número de fãs crescia a cada apresentação, mas James Hetfield ainda não estava satisfeito com a guitarra e vocal ao mesmo tempo. Primeiro porque não achava sua voz boa (e nesse começo, definitivamente não era) e segundo porque, dividindo as duas funções, ele não se especializava em nada e sequer tocava um solo sem errar as notas.

Em Abril e Maio de 1982, a banda fez algumas tentativas para deixar James apenas como vocalista. Primeiro com um guitarrista chamado Brad Parker, bom músico mas clássico demais para o som do Metallica, depois com Damian Philips. Sem avanços nestes ensaios, os integrantes pensaram em outra inversão de papéis tentando deixar James, agora, apenas como o segundo guitarrista, primeiro com o vocalista Jeff Warner (quem conhece a voz do cara agradece ao papai do céu todas as noites por ele não conseguir a vaga) e depois John Bush, então do Armored Saint (“atual” ex-vocalista do Anthrax) e grande amigo dos caras do Metallica. James adorava os vocais de Bush, mas a experiência não durou muito tempo pelo seu timbre de voz que tornava as músicas mais leves do que deveriam.

Após o fracasso destas tentativas, segundo o próprio Hetfield “(...) então eu parei de me preocupar em como deveria cantar e comecei a berrar as letras. Por incrível que pareça, as pessoas gostavam e eu dizia: bom, então tudo bem!”.



Para complementar, a mãe de Ron tinha um imóvel desocupado que seria demolido em breve, e autorizou que o lugar fosse convertido no centro oficial de ensaios do primeiro ano do Metallica. James e Ron acabaram se mudando para a casa e encheram as paredes com pôsteres de suas bandas preferidas para aumentar a inspiração na hora de compor novas músicas. Entre esses pôsteres, estava um do Judas Priest. Os ingleses, a maior banda de Heavy Metal então, exerceram um papel importante nesse começo do Metallica. Segundo os californianos, a coisa funcionava mais ou menos da seguinte forma: Rob Halford escrevia sobre vingança (Screaming For Vengeance), Hetfield lia a letra e escrevia sobre o mesmo assunto (No Remorse) e assim a banda evoluía, buscando uma variação nos temas, mas respeitando a posição dos Metal Gods nesse começo.

Com a quantidade de shows, fãs e composições crescendo, a banda achou um bom momento para a gravação de uma primeira demo, apenas com músicas próprias do Metallica e chamar a atenção de alguma gravadora.

Os quatro integrantes racharam o valor do aluguel de um estúdio mediano e gravaram 7 músicas, como se fossem ao vivo, sem grandes parafernálias em 6 de Julho de 1982. A demo jamais saiu no mercado comercialmente (mesmo que hoje seja relativamente fácil de encontrar nas lojas especializadas em bootlegs e na Internet) e servia apenas como um cartão de visita às gravadoras. O nome dado à fita, No Life Til Leather, era uma óbvia referência ao disco ao vivo do Motörhead lançado no ano anterior, No Sleep Til Hammersmith, mais a palavra “Leather” (couro) que James adorava. A frase também abre a letra de Hit The Lights, a primeira composição da banda.

As músicas gravadas foram: Hit The Lights, Mechanix (uma primeira versão de The Four Horsemen, com a letra diferente), Motorbreath (primeira composição de James, ainda nas bandas anteriores), Seek and Destroy, Metal Militia, Jump in the Fire e Phantom Lord (outra composição antiga de James).

Alguns dias depois, Lars distribuiu uma cópia para alguns amigos e a gravação rapidamente se espalhou pelo circuito de troca de fitas cassete, o Napster do começo dos anos 80 (e com braços fortes, inclusive no Brasil). A qualidade e as inovações da demo caíram como uma bomba na cena headbanger da Costa Oeste dos EUA.

Nosso amigo Brian do BNR Metal Pages também se lembra da primeira vez em que ouviu a demo, quase por acaso: “Ainda em 1982 eu adquiri uma cópia do No Life Til Leather através de um dos meus amigos que trocavam fitas. Desde este dia, eu não acho que alguma demo, ou mesmo um álbum, causou tanto impacto em mim como aquela fita. Eu ainda acho que o som das guitarras na demo soava melhor do que no Kill´Em All, até mesmo porque eu estava tão acostumado com o som da demo, que o som do álbum, inevitavelmente era diferente e não tão bom.”

Muitas pessoas ainda comemoram o No Life Til Leather como o primeiro lançamento oficial do Thrash Metal mas Lars discorda e sempre afirma que essa honra coube ao Venom e seu aclamado Welcome to Hell de 1981. Os próprios integrantes do Venom, no entanto, rebatem que a banda surgiu da NWOBHM e a honra da inauguração do Thrash coube mesmo ao Metallica.

O sucesso era evidente, mesmo antes de a banda gravar seu primeiro disco, mas os integrantes não estavam contentes em Los Angeles. Como conta Brian Slagel “o público de Los Angeles pensava no Metallica como uma banda Punk, mas nenhuma banda Punk tocava rápido como eles”. O grande problema era a onda Glam que atingira em cheio a cidade com a consolidação de nomes como Ratt e Mötley Crüe, e Lars, James & cia. abominavam a atitude poser, seus biquinhos, maquiagens e sapatos com salto. Para completar, os shows do Metallica em San Francisco superaram todas as expectativas, pois a cena naquela cidade crescia em um ritmo alucinante e as lojas de Heavy Metal pipocavam pelos quarteirões.

Essa nova geração de headbangers de San Francisco, fanática pelas novidades, era chamada de Bay Area Bangers e depois Bay Area Thrashers. A famosa Bay Area nada mais é do que um bairro no oeste da cidade onde se concentrava grande parte das famílias de classe média e, consequentemente, seus filhos adolescentes. O grande ponto de encontro desses jovens era uma loja de discos chamada Record Vault na Rua Polk que oferecia entre braceletes e camisetas, discos piratas e demos das bandas que surgiam na Califórnia como Exodus, Vicious Rumors, Overdrive, Metallica, Cirith Ungol e o Heathen. Logicamente, Lars Ulrich era um dos grandes freqüentadores da loja.

A banda pensou seriamente em mudar para San Francisco já nessa época, mas como a cidade não era tão distante de Los Angeles e a grana andava curta, eles preferiram continuar onde estavam e apenas concentraram mais os shows nos bares da Bay Area.

Uma conhecida headbanger da cena de San Francisco era uma garota chamada Kathi Page. Kathi trabalhava na rádio KRQR, uma das poucas rádios Rock existentes que não se limitavam a tocar bandas farofas em sua programação e davam oportunidade para o novo som que surgia – como se pode perceber, esse problema é mais velho do que se imagina. Em outubro de 1982, Kathi conseguiu com a direção da rádio um patrocínio para realizar um evento de Metal em um grande bar chamado Old Waldorf, no coração financeiro de San Francisco. Esse show traria todas as segundas feiras (por isso ele foi apelidado de Metal Monday) três bandas diferentes tocando em uma espécie de competição. Obviamente que o Metallica logo se transformou na atração principal do festival.

A platéia presente nesses shows não conseguia descrever o som da banda; Alguns falavam em um Mötorhead mais rápido, outros em um Heavy Metal Ramones mas todos eram unânimes em afirmar que jamais ouviram algo parecido ao Metallica e sua rapidez.

As demais bandas nos shows também começaram a se adaptar à velocidade, distorção e peso. Na verdade, surgiu uma competição paralela em quem tocava mais rápido e mais pesado e daí surgiram as primeiras bandas de Thrash Metal. O termo “Thrash” (agressão) era a descrição perfeita daquele novo tipo de som e estava presente em grande parte das primeiras composições daquelas bandas como na música Whiplash do próprio Metallica, Metal Thrashing Mad do Anthrax (eles são de Nova York mas falaremos sobre isso no próximo capítulo) e Metal Command do Exodus. Infelizmente, grande parte da imprensa ainda confunde e chama o gênero de Trash (lixo) Metal quase 25 anos depois do seu surgimento. Incrível como a ignorância prevalece.

Através da repercussão no Metal Monday, a banda ganhou seus primeiros seguidores fiéis na Bay Area, especialmente com a divulgação maciça do No Life Til Leather, e chamou a atenção das gravadoras interessadas em investir no futuro promissor do Metallica. A primeira, High Velocity Records, ofereceu um contrato para soltar primeiro um EP e depois, dependendo da aceitação, eles bancavam a gravação de um álbum completo. Lars, o então “empresário”, disse não e esperou por uma oferta melhor.

Depois foi a vez da Shrapnel Records, conhecida gravadora de Mike Varney e também responsável pela carreira do guitarrista Yngwie Malmsteen nos EUA há 20 anos. Apesar de uma oferta melhor, Lars também recusou a proposta e a banda preferiu esperar um pouco mais.

O segundo semestre de 1982 marcou também as primeiras grandes brigas internas na banda, especialmente o duelo de egos entre James Hetfield e Dave Mustaine. Para resumir a história: Mustaine passava por um sério problema com álcool e drogas, particularmente durante os shows, o que atrapalhava a performance de todos. Para piorar, não eram raras as vezes em que os dois quebravam o pau em cima do palco mesmo, pois Mustaine não se contentava em ficar ao lado do guitarrista/vocalista; Ele queria os holofotes e abusava da paciência dos outros encaixando solos inexistentes e criando verdadeiros malabarismos para desviar a atenção do público (você consegue alguns exemplos disso em trechos do clássico vídeo Cliff´Em All). Lógico que todos na banda bebiam, mas sabiam controlar os seus limites, o que não acontecia com Dave.

Uma briga, em especial, ficou muito famosa: James, Lars e Ron estavam em casa. Ron tomava um banho e Dave chegou bêbado com seu cachorro (descrito como uma máquina assassina). O cão resolveu passear e descobriu o carro de Ron na garagem com a porta aberta. Bom, digamos que o animal (me refiro ao cachorro) destruiu todo o estofamento do bólido. Quando James viu a cena, imediatamente ordenou que Mustaine fosse embora com seu bichinho, sendo que o guitarrista não estava em seus melhores humores e virou um soco violento na cara de Hetfield, que também revidou e um quebra-pau generalizado começou até que Lars interveio e separou os dois.

Anos depois, o próprio Mustaine comentou em uma famosa entrevista que existem dois tipos de bêbados: os alegres e os raivosos e ele pertencia ao segundo grupo.

Apesar dos problemas, o Dave sóbrio e limpo era um bom músico e grande parte das composições do Kill´Em All e também os primeiros riffs do Ride The Lightning nasceram com a sua ajuda. São fatos jamais negados por James e Lars e, por enquanto, Dave continuaria.

Apesar da amizade, a dupla principal também não estava satisfeita com Ron McGovney. Ron não era um mau baixista mas sua limitação técnica poderia influenciar os rumos da banda já que os grandes destaques na cena Thrash eram justamente a rapidez e a técnica, características não muito fortes nele.

Em agosto de 1982, sem Ron saber, Brian Slagel chamou James e Lars para contar sobre o grande baixista da banda Trauma que ele viu no Whiskey A-Go-Go alguns dias antes. Slagel disse que a banda, apesar de participar na segunda edição do Metal Massacre, não era tão boa assim pois não trazia nada de original, mas o baixista poderia mexer montanhas se tocasse no lugar certo.

Meio incrédulos com a opinião do amigo, os dois integrantes do Metallica foram a uma apresentação do Trauma no Troubadour (LA) em 21 de Outubro de 1982 . A banda em si, realmente não impressionou, mas o baixista...

Para se ter uma idéia, em um determinando momento, Cliff Burton começou a tocar um solo tão rápido e distorcido (ele usava um pedal de guitarra para aumentar a distorção), apenas dedilhando (nada de palhetas) que James achava impossível aquele som, tinha de haver algum truque ou alguma guitarra escondida atrás do palco.

Mas não havia. Clifford Lee Burton nasceu a 10 de Fevereiro de 1962 em San Francisco, filho de pais hippies, e em sua adolescência tocou em diversas bandas locais com vários músicos que depois se destacaram, entre eles o baterista Mike Bordin e o guitarrista Jim Martin, ambos do Faith No More.

Cliff era o tipo desencanado, alegre e profissional. Muito influenciado pelo Lemmy do Motörhead, (tanto que seu primeiro baixo foi um Rickenbaker exatamente igual ao de Lemmy), mas também amava o trabalho do compositor Bach e histórias envolvendo o ocultismo de autores como H.P Lovercraft, grande influência como se percebe nas músicas The Call of Ktulu e The Thing That Should Not Be. Cliff também era mais eclético, gostava de Simon & Garfunkel e foi um dos primeiros ouvintes do R.E.M, quando a banda ainda tocava em bares fuleiros.

James e Lars colocaram na cabeça a necessidade de convencer aquele baixista a entrar no Metallica e foram bater um papo. Cliff foi bem simpático (como sempre), ouviu a proposta e concordou em entrar no Metallica mas desde que a banda se mudasse definitivamente para San Francisco pois ele não trocaria a cidade por nada. James e Lars ficaram de pensar no assunto.

Um mês depois, em 29 de Novembro de 1982, o Metallica tocou novamente no Metal Monday. A banda de abertura era ninguém menos que o Exodus, então com um tal Kirk Hammett nas guitarras. Esta foi a primeira vez que o caminho do Metallica cruzou o de Kirk em cima dos palcos. O show foi gravado e seu bootleg atualmente é conhecido como Live Metal Up Your Ass. Na verdade, o objetivo da banda era realmente gravar a apresentação e divulgá-la para as gravadoras mas a qualidade sonora não ficou muito legal e eles desistiram da idéia.

No dia seguinte o Metallica tocaria pela última vez com Ron no baixo. James e Lars tentaram esconder o contato com Cliff mas sempre comentavam sobre o assunto nos backstages (obviamente, longe de Ron) e, se mudavam ou não para San Francisco. Em 30 de Novembro, logo após o show, a então namorada de Ron ouviu os dois comentando sobre o assunto e correu para contar toda a história. O baixista ficou uma pilha de nervos e, após uma breve discussão, saiu da banda por conta própria.

A importância de Ron McGovney na história do Metallica sempre foi subestimada e, justiça seja feita, apesar das limitações técnicas, o cara foi um dos que mais investiu no futuro. Ele era o único que tinha um carro e arcava sozinho com todas as despesas do combustível para levar a banda e todo equipamento pra cima e pra baixo nos shows, além de ser o dono do primeiro local de ensaio da banda. Ron desistiu da vida de músico após sua saída do Metallica, a não ser por uma participação esporádica no Hirax ainda nos anos 80. Mas hoje em dia ainda é muito amigo de James Hetfield e sempre comparece aos shows na Costa Oeste dos EUA.

Desesperados pela perda de um baixista antes mesmo de garantir a chegada do outro, e também pela perda do local de ensaios, o Metallica não teve opção a não ser mudar definitivamente para San Francisco e agradar Cliff Burton. Cá entre nós, a banda já pensava há bastante tempo em sair de Los Angeles e aproveitar melhor a cena da Bay Area, só faltava um pouco de motivação e dinheiro.

O primeiro teste de Cliff foi na casa do roadie e amigo, Mark Whittaker, e consistia em tirar uma única música, Seek and Destroy, o mais rápido que pudesse. O baixista não se preocupou e após uma performance matadora, todos sabiam que ele era o cara certo. Sem vacilar, Burton deu tchau ao Trauma (a banda terminou pouco tempo depois) e se uniu oficialmente ao Metallica em 28 de Dezembro de 1982.

PARTE 4
Em Fevereiro de 1983, já com Cliff Burton, a banda se mudou para uma casa em San Francisco localizada no bairro El Cerrito, bem próximo a Bay Area. Estranhamente Dave Mustaine não acompanhou os demais e preferiu morar na casa da avó do roadie Mark Whittaker, mais ou menos perto do local também. Apesar de bizarro, esse fato mostra claramente a divisão que já existia entre o guitarrista e os outros pelo duelo de egos.

A nova casa do Metallica rapidamente se converteu em um estúdio onde a banda escreveu mais algumas músicas e gravaram algumas reedições das antigas composições com Cliff no baixo. Para encontrar o clima perfeito, Lars concordou em cancelar todos os shows nesses primeiros meses de 1983, para que tivessem tempo suficiente de ensaios e jams, inclusive no novo material, composto com a ajuda de Cliff. O primeiro show com o novo baixista (e do Metallica no ano) só ocorreu em 5 de Março em um clube chamado The Stone em San Francisco – um dos locais preferidos do Metallica, diga-se de passagem, e um dos primeiros pontos de concentração dos fãs da banda. O setlist dessa noite contou com Hit The Lights, The Mechanix, Phantom Lord, Jump in The Fire, Motorbreath, No Remorse, Seek And Destroy, Anesthesia (sim, no primeiro show, o baixista já fez seu solo individual), Whiplash, Am I Evil?, The Prince, Blitzkrieg, um solo de Dave Mustaine e Metal Militia. Algumas imagens do famoso vídeo Cliff´Em All são da segunda apresentação, 19 de Março, no mesmo Stone.

Em janeiro daquele ano, Lars entrou em contato com o velho amigo, Brian Slagel, pedindo um adiantamento de 5.000 dólares para que a banda finalmente gravasse o seu primeiro álbum. O baterista queria um trabalho independente já que as propostas recebidas das gravadoras, até então, não eram interessantes ao futuro. Slagel não tinha a grana pois se atolou em dívidas nos últimos meses com a empolgação do Metal Massacre (aparentemente, ele sempre foi um péssimo administrador) e não poderia ajudar mais, a não ser indicando o nome de uma pessoa que talvez se interessasse no potencial dos californianos, seu nome era Johnny Zazula (ou Johnny Z como gosta de ser chamado), o proprietário de uma loja de discos do outro lado dos Estados Unidos, chamada Rock´n´Roll Heaven.

Johnny conhecera o Metallica alguns meses antes, quando um cliente chegou em sua loja com o No Life ´Til Leather e o Live Metal Up Your Ass nas mãos pedindo para ele ouvir aquele som. O empresário recebia pedidos assim todos os dias, especialmente porque as pessoas sabiam de seus contatos nas grandes gravadoras e o “empurrãozinho” que poderia dar. Mas aquele caso era diferente e pegou Mr. Zazula de surpresa com a sonoridade crua e pesada da demo.

Zazula começou a se interessar mais em saber quem eram aqueles caras da costa oeste e entrou em contato com o pessoal do Fanzine Metal Mania (lembra de onde Lars roubou o nome “Metallica”?) pedindo para que eles colocassem os integrantes em contato. Johnny também era um importante promotor de shows da Costa Leste e em breve traria o Venom para uma turnê nos EUA. Quem sabe ele não conseguisse os californianos como a banda certa de abertura? Enquanto isso, tentaria algum bom contato com uma gravadora.
Assim como aqui no Brasil existe a famosa rivalidade entre Rio e São Paulo, nos EUA também é notória a rixa entre a Costa Leste e a Costa Oeste do país e Brian Slagel nunca se conformou em perder uma banda tão promissora para um empresário do outro lado do continente. Um outro dono de uma pequena gravadora de Metal da Califórnia, Mike Varney da Shrapnel Records, também tentou algum contato com Lars Ulrich, mas nem a Metal Blade e nem a Shrapnel, conseguiram comprar a ambição e os sonhos ousados do jovem dinamarquês.

Lars, o “responsável” pelo grupo, ligou para Johnny e ambos conversaram durante bastante tempo. O baterista se empolgou com a idéia de abrir para uma banda grande como o Venom (James também era fanático pelos ingleses e não é raro encontrarmos antigas fotos com o vocalista/guitarrista ostentando a camiseta com a capa do Welcome to Hell), mas o problema era que Johnny morava em Nova Jersey, do outro lado do país (onde os shows também aconteceriam) e o Metallica não tinha dinheiro suficiente para viajar até lá e fechar a parceria.

Em 16 de Março de 1983, antes da viagem, a banda gravou um registro simples com as músicas Whiplash e No Remorse em versões preliminares. Existem duas versões para essa demo: a primeira é que era uma forma de mostrar trabalho para Johnny e ter o contrato assinado com alguma grande gravadora sem muitas dúvidas sobre a qualidade das músicas novas. A segunda versão é que seria uma boa oportunidade de mostrar pela primeira vez as composições feitas, já com Cliff no baixo, e o salto de qualidade alcançado. Essa demo tocou com muito sucesso em uma rádio de San Francisco chamada KUSF FM durante os meses que se seguiram.


Após mais uma audição cuidadosa do No Life ´Til Leather e da nova Demo e certo de um bom negócio, Johnny concordou em mandar cerca de 1.500 dólares de adiantamento para James, Lars, Cliff, Dave e também o roadie, Mark Whittaker, para que eles alugassem um furgão, colocassem todo o equipamento dentro, enchessem o tanque e fossem para Nova Jersey. A viagem durou mais ou menos uma semana com os integrantes se revezando no volante, mas quase se transformou em tragédia quando um Dave Mustaine bêbado bateu o carro em um Jipe. Por sorte ninguém se machucou, mas aquela foi a gota d´água entre Mustaine e os demais integrantes: a oportunidade da vida e o guitarrista quase jogou tudo fora por seus excessos.

Sem um lugar para ficar, cansados e com fome, o Metallica chegou à Costa Leste e hospedou-se na casa de Johnny e sua esposa (a contenção de gastos era a palavra chave). Para cobrir as despesas de alimentação dos quatro novos moradores, o empresário deixava um aparelho de som ligado na calçada tocando o No Life ´Til Leather ininterruptamente durante todo o dia e vendia cópias em fitas cassete por 3 dólares cada.

Empolgado com a qualidade do Metallica após presenciar um primeiro ensaio, Johnny fechou a parceria para que eles abrissem os shows do Venom e enquanto isso, o promotor se comprometeu a oferecer o trabalho da banda para alguma grande gravadora.

Apesar de toda expectativa girando sobre o futuro, Johnny não conseguiu grandes opções de contrato, mesmo com toda a sua rede de amigos. O problema era o som da banda: muito cru, pesado e não tocaria nas principais FMs do país pela agressividade. As gravadoras estavam receosas da resposta que o Thrash Metal encontraria no mercado. Cansado de procurar em vão por uma boa proposta, o empresário tomou uma decisão drástica: pegou toda sua grana guardada com o lucro da loja, fundou sua própria gravadora - a Megaforce Records – e assinou com o Metallica como a primeira contratação.

Para que o investimento no novo ramo não resultasse em prejuízo, Johnny acompanhava atentamente cada show e ensaio da banda na Costa Leste e começou a se sentir desconfortável com a atitude de Dave Mustaine em relação aos demais. Mustaine estava sempre fora de controle, bêbado, drogado, displicente com as responsabilidades e prejudicava os shows de abertura do Venom. A situação era insustentável, mas até hoje, nem Johnny, nem os integrantes do Metallica e nem o próprio Mustaine revelaram qual foi o grande estopim na história. A verdade é que assim que chegaram em Nova Jersey, os integrantes já queriam Dave fora pelo acidente que aconteceu na viagem.

Ao mesmo tempo em que Lars e James queriam chutar Mustaine o mais rápido possível, o nosso roadie Mark trouxe algumas fitas de shows do Exodus (lembra deles?) para a Costa Leste e mostrou o material aos amigos. Eles rapidamente se lembraram de algumas apresentações que assistiram, em especial aquela onde a banda abriu para o Metallica no Metal Monday, mas não conseguiram se lembrar da cara do guitarrista. De qualquer forma, o material era muito bom.

A primeira coisa que todos notaram sobre Kirk, era o seu jeito europeu de tocar Heavy Metal: melódico (muito técnico) e rápido, diferente da maioria dos guitarristas norte-americanos que preferia riffs diretos, sem muitas firulas.

Kirk Lee Hammett nasceu em 18 de Novembro de 1962, filho de mãe filipina e pai comerciante de produtos marinhos. Kirk teve o primeiro contato com o Rock através de seus irmãos e primos, em especial seu irmão Rick e uma grande coleção de discos de nomes como Jimi Hendrix, UFO e Led Zeppelin. O pequeno Hammett cresceu querendo ser um novo Hendrix ou Santana.

Kirk começou a aprender guitarra com 15 anos de idade e um de seus primeiros professores foi ninguém menos que o mago careca Joe Satriani (que também voltaria a lhe dar aulas de aperfeiçoamento anos depois, com Kirk já no Metallica). O problema é que no começo, Hammett não tinha muita coordenação motora e Joe tentou convence-lo de que essa coisa de música não era sua praia. O futuro guitarrista se enfureceu e começou uma dedicação de mais de 12 horas diárias no instrumento. Em questão de meses, através de seu esforço, o futuro integrante do Metallica virou um autodidata no assunto.

No começo dos anos 80, Kirk comprou sua primeira Fender Stratocaster, a guitarra de seus sonhos, e se tornou um verdadeiro fanático em busca do som perfeito. O guitarrista costumava desmontar todos os seus instrumentos, misturando as partes para ver qual combinação soaria melhor até que comprou uma Gibson Flying V e a busca terminou. Para comprar um amplificador melhor (um Marshall), Kirk também trampou por um tempo em um Burger King de San Francisco. Nessa mesma época, ele fundou o Exodus com o finado vocalista Paul Baloff.

Exatamente no dia 1º de Abril de 1983, Mark ligou para Kirk explicando a situação sobre Dave Mustaine e perguntando se ele estaria interessado na vaga. O guitarrista se lembrava claramente do Metallica, a primeira banda da Bay Area a explodir e fazer sucesso no outro lado do país, por isso achou que a ligação era apenas uma brincadeira do Dia da Mentira (sim, eles também têm isso por lá), disse algo do tipo “Ok, tudo bem” e desligou xingando o roadie. No dia seguinte, o próprio Lars ligou novamente e disse que a proposta era séria e urgente. Kirk não podia acreditar na sorte que batia em sua porta e torrou todas as suas economias comprando uma passagem aérea de San Francisco para Nova Jersey, onde a banda estava.

O último show do Metallica com Dave Mustaine ocorreu no L´amours em Nova York em 9 de Abril de 1983 com o Venom e o Vandenberg. Pouco depois da apresentação, James, Lars e Cliff decidiram quem iria informar Mustaine que ele estava demitido. Cliff acabara de entrar na banda, Lars temia a reação violenta do guitarrista, portanto sobrou para James Hetfield a comunicação do fato. Sem muita enrolação, James apenas disse que todos pensaram muito e as coisas não poderiam mais continuar desta forma: Dave estava fora.

O guitarrista, pra variar totalmente bêbado, demorou cerca de 10 minutos para arrumar suas coisas e foi colocado em um ônibus de volta para San Francisco. Reza a lenda que Mustaine passou a viagem inteira inconsciente após o último porre e só acordou (entenda-se “percebeu o que tinha acontecido”) em casa.

A saída de Dave Mustaine do Metallica é um dos capítulos mais polêmicos da história da banda e até hoje gera repercussão. Quem assistiu ao DVD Some Kind of Monster deve se lembrar da cena clássica em que o guitarrista discute com Lars Ulrich as conseqüências de sua saída e o quanto isso representou nas décadas seguintes.

Muito magoado, Dave formou o Megadeth em San Francisco alguns meses depois jurando que iria ofuscar o sucesso do seus ex-colegas e deu diversas entrevistas alfinetando James e Lars e ainda acusando Kirk de roubar indevidamente todos os seus solos naquelas primeiras músicas da banda.

A novela Metallica X Megadeth ainda gera muita polêmica e volta e meia, nos deparamos com declarações de Dave Mustaine, ora malhando a banda, ora pedindo desculpas e reconhecendo seus erros no passado.

inalmente, em 14 de Abril, Kirk chegou à Nova Jersey e fez seu primeiro ensaio com a banda. Durante a audição, Lars, James e Cliff riam sem parar e Kirk começou a achar tudo aquilo muito estranho “será que eles pensam que sou engraçado? Ou eles sempre são pessoas felizes?” pensou o guitarrista em uma entrevista alguns anos depois. Mas a verdade é que todos adoraram a garra e a melodia que o cara trazia às composições do Metallica e ele foi aprovado sem maiores enrolações ou contratos (ao contrário da entrada de Rob Trujillo na banda há alguns anos, por exemplo).

O guitarrista não teve muito tempo para tirar as músicas pois eles já estavam em meio a uma série importantíssima de shows, afinal a turnê com o Venom continuava a todo vapor. O primeiro show de Kirk com o Metallica aconteceu dois dias depois de sua chegada, em 16 de Abril de 1983 no Showplace em Nova Jersey.

Enquanto não tocavam nos shows da Costa Leste ou ensaiavam as novas composições para a gravação do primeiro álbum, a banda aproveitava para freqüentar bares e lojas de Rock de Nova York. Foi então que os integrantes do Metallica conheceram futuros grandes amigos que, mais tarde, também se tornariam famosos na cena Thrash: o Anthrax.

Scott Ian, Dan Spitz, Neil Turbin, Danny Lilker e Charlie Benante – a formação do Anthrax na época – conheciam bem cada beco de Nova York e Nova Jersey, afinal cresceram na região, e também conheciam Zazula, por onde chegaram até o pessoal do Metallica, os “perdidos na cidade”. Vale lembrar, aliás, que os primeiro álbuns do Anthrax também saíram pela Megaforce Records.

O Anthrax era uma das únicas bandas da Costa Leste que tocava um som mais voltado ao Thrash Metal, por isso não é de se estranhar que as duas bandas se dessem tão bem. Os laços de amizade eram muito fortes e os integrantes sempre eram vistos juntos, nos mesmos shows e nas mesmas festas.

A relação cresceu ainda mais quando o Metallica teve de sair da casa dos Zazula e foi morar em um prédio apelidado “The Music Building”, onde também ensaiavam e dividiam um estúdio improvisado com os caras.

O lugar era horrível: um antigo edifício comercial sujo e sem água quente, mas funcionava muito bem como um local de ensaios e, quando a banda precisava de alguma coisa, os integrantes do Anthrax sempre davam um jeito de ajudar. O guitarrista Scott Ian chegou a emprestar um forno elétrico e uma pequena geladeira para que James e os demais pudessem preparar o almoço já que dinheiro era uma coisa rara naquele momento.

O Metallica ganhava nome também na Costa Leste e finalmente se preparava de verdade para a gravação do primeiro trabalho de estúdio. No capítulo final desta matéria, a gravação e o lançamento do Kill´Em All.
PARTE 5 (última parte)
Com o lucro do shows na Costa Leste e as economias de sua loja de discos, em maio de 1983, finalmente Johnny Z juntou o necessário para financiar as gravações do primeiro álbum do Metallica pelo próprio selo, Megaforce, e começou a busca por um estúdio.

Um fato que antecedeu a ida da banda para as gravações, foi a volta da insegurança de James Hetfield em a assumir os vocais e guitarra ao mesmo tempo. Após uma reunião onde James afirmou novamente que fosse melhor ficar apenas com a guitarra base, especialmente depois da saída de Mustaine e o fim dos conflitos. Os integrantes tentaram, então, uma ligação de última hora para o vocalista John Bush na Costa Oeste para que ele já entrasse na banda gravando o disco. O então vocalista do Armored Saint se sentiu honrado por ter sido lembrado de novo (se você se lembra dos últimos capítulos, a banda tentou alguma coisa com Bush quando ainda moravam em Los Angeles), mas dessa vez foi o próprio quem rejeitou o convite já que o Amored alcançava um sucesso relativo e ele não trocaria aquilo por uma incerteza ao lado do Metallica: James teve de se conformar em gritar as letras e continuar como guitarrista mesmo, especialmente naquele momento crucial.

Como estavam sem muita grana (apesar da bem-sucedida turnê com o Venom), um amigo de Johnny Z, um certo ex-roadie do Black Sabbath chamado Joey DeMaio – sim, o próprio baixista e fundador do Manowar – recomendou um estúdio baratinho conhecido como Music America em Rochester, cidade ao norte do estado de Nova York.

Joey avisara que o estúdio era bem precário, praticamente o porão de uma velha casa colonial, mas um lugar chamava muito a atenção: o salão oval no segundo andar, ótimo – acusticamente falando - para as gravações da bateria do perfeccionista Lars Ulrich.


Ciente da responsabilidade do investimento, Zazula voou primeiro para a cidade a fim de checar a qualidade do lugar e negociar (entenda-se pechinchar) os valores do aluguel com seu proprietário, Paul Curcio. Para que o empresário não tivesse de contratar um produtor e desembolsar mais grana extra além das passagens e hospedagem, Johnny decidiu contratar o próprio Curcio (afinal, ele morava no local e tinha experiência com todos os seus equipamentos) como produtor do primeiro disco do Metallica, mesmo que o cara não tivesse muita familiaridade com Heavy Metal.

Assim que o estúdio foi aprovado, a banda voou para Rochester e os ensaios para a gravação começaram. Vale lembrar que com as saídas de Ron e Mustaine nos meses anteriores e a entrada dos novos músicos, a maior parte das primeiras músicas do Metallica ganhou versões mais trabalhadas, com harmonias diferentes e pequenas mudanças nos solos.

Obviamente, as músicas escolhidas para figurarem no disco foram basicamente as 10 primeiras compostas nos últimos dois anos, as mesmas que já faziam a alegria dos fãs nas demos e nos shows da Bay Area. Algum material extra também já estava pronto, como alguns riffs de Fight Fire With Fire, Call of Ktulu e a introdução de Ride The Lightning (todas compostas com a ajuda de Dave Mustaine), mas essas composições ainda eram muito cruas e foram deixadas para depois.

Hit The Lights era a escolha óbvia para abrir as gravações já que foi a primeira composição oficial do Metallica e mostrava toda a energia e velocidade do Thrash Metal naquele começo. The Four Horsemen foi a música com maior alteração desde sua versão preliminar, a famosa The Mechanix. A verdade é que essa era a composição original com maior participação de Dave Mustaine e James se sentia constrangido em cantar versos de um ex-integrante, expulso de uma forma tão polêmica. O vocalista/guitarrista preferiu reescrever tudo, substituindo o tema futurista por uma versão bíblica dos quatro cavaleiros do apocalipse e acrescentou um intervalo lento com inspiração no clássico Sweet Home Alabama do Lynyrd Skynyrd. A nova The Four Horsemen também é considerada a ponta do rumo que foi tomado pela banda nos álbuns seguintes, com várias viradas em seu andamento e riffs marcantes, não apenas baseados na velocidade.

A intimista música de James, Motorbreath, era a próxima seguida por Jump In The Fire, que fugia um pouco do Thrash e trouxe as influências mais tradicionais, especialmente da NWOBHM, ao som do disco.

O Metallica mostrou que inovação era o caminho para o sucesso e os caras resolveram incluir o solo de baixo de Cliff Burton, Anesthesia, também no álbum, para que o disco refletisse com a maior precisão possível a experiência de um show. A voz que fala “bass solo, take one!” no começo é de James e a grande curiosidade é que Cliff se trancou na sala de gravação e não permitiu que nenhum outro integrante tivesse acesso à versão final de seu solo (nascido de um improviso e gravado com pedal de overdrive para guitarras) até que ele mesmo aprovasse. Os demais integrantes acompanhavam Cliff apenas pelo vidro do aquário da sala, sem escutar o que o baixista fazia ou conversava com o produtor. A rápida e pesada Whiplash finalizava o lado A do vinil.

O lado B seguia a porrada e trazia as músicas preferidas dos fãs nos shows, começando com Phantom Lord e passando por No Remorse, Seek and Destroy e o hino Metal Militia.

Todo o processo de gravações durou quase três semanas (entre os dias 10 e 27 de Maio) e o produtor Paul Curcio não pôde dar muitos palpites durante a mixagem já que James e Lars eram extremamente ciumentos com suas composições e raramente deixavam Curcio ou Zazula opinarem (fato também explicado pelo baixo orçamento disponível já que grandes mudanças precisariam de tempo e, na linguagem dos estúdios, tempo é MUITO dinheiro), mas a verdade é que o resultado final surpreendeu a todos, especialmente pelo baixo valor investido (cerca de US$ 18.000).

Um fato curioso durante as gravações aconteceu com Lars. O baterista jura até hoje que a velha casa utilizada, em especial o salão oval onde foram gravados todos os takes da bateria, era assombrada e exigia que alguém ficasse com ele o tempo inteiro pois, do nada, os pratos e o bumbo começavam a tocar sozinhos.

Quando os integrantes ouviram pela primeira vez a fita final das gravações, também perceberam que as músicas estavam ainda mais rápidas do que as versões dos shows ou das demos. James, em uma entrevista publicada 3 anos depois, afirmou que este foi um processo natural ocorrido ao longo dos meses já que todas as composições eram ensaiadas à exaustão e, com o aperfeiçoamento do instrumental, elas ficaram cada vez mais rápidas.

Com a fita master pronta, o próximo passo era batizar o álbum. A escolha, na verdade, já estava feita desde que a banda viajou de San Francisco para Nova Jersey. O nome do primeiro disco seria Metal Up Your Ass (literalmente: “o Metal enfiado na sua bunda” – nome simpático, que batiza este artigo também) e até o desenho da capa já estava pronto (idéia e concepção de Mr. Hetfield): uma privada aberta com um punhal saindo de dentro pronto para cortar o traseiro de alguém. A frase já era bem conhecida dos fãs e sempre utilizada por James durante os shows nas músicas No Remorse e Metal Militia para chamar a participação do público e aumentar ainda mais a energia. Você pode conferir alguns desses momentos de interação no vídeo Cliff ´Em All. Até hoje a página oficial do Metallica vende em sua loja a camiseta com a ilustração do que seria essa capa do primeiro álbum e os dizeres “Metal Up Your Ass” logo abaixo.

Todos adoraram a idéia, menos o distribuidor de discos contratado por Zazula que se recusou a trabalhar com um material tão “ofensivo”. O empresário ainda tentou negociar alguma mudança no desenho mas nada feito: ou a banda mudava o nome do álbum e o desenho da capa ou o contrato de parceria entre a Megaforce e o distribuidor seria encerrado. Ao tomar conhecimento de toda a história, o baixista Cliff Burton ficou muito irritado e disse “ah quer saber? Vamos matar todos eles” e os que ouviram essa frase gostaram da idéia – não do crime, obviamente, mas da sentença “Matar todos eles (Kill ´Em All)” como uma expressão de raiva que simbolizava todo o trabalho do Metallica até então e o novo som que surgia e, assim, se batizou o primeiro álbum dos californianos.

Com o nome pronto, James e Lars tiveram de repensar um outro conceito para o desenho da capa e preferiram algo mais simples, agressivo (para ainda desafiar os distribuidores), mas bem direto, sem caveiras ou monstros, elementos bem conhecidos das capas de trabalhos de Metal (vide capas do Iron Maiden, Motörhead e Venom, por exemplo).

Algumas idéias bem simples foram lançadas e a escolha final acabou com colagens tiradas de gravuras de revistas com um martelo, uma poça de sangue e a sombra de uma mão. O logo utilizado seria o mesmo criado por James e já divulgado a exaustão nos shows da banda: estava pronto o primeiro disco oficial do Metallica.

O Kill ´Em All chegou oficialmente às lojas no dia 25 de Julho de 1983 e vendeu, de cara (nas primeiras horas do dia do lançamento), 7.000 cópias apenas nos Estados Unidos. Um número nada mau para uma banda que estava apenas começando e trazia um som bem diferente, mesmo para o conceito da música pesada.

Assim como ocorreu com a prensagem do Metal Massacre, a primeira edição do Kill ´Em All também saiu com alguns errinhos de fábrica, como alguns discos que vieram sem o encarte e a letra das músicas e algumas capas que saíram com erros de impressão. Esses itens hoje são raríssimos, vendidos por uma pequena fortuna em sites de leilão.

As críticas dos fãs e da imprensa eram bem variadas: a maioria amou o disco mas alguns estavam tão acostumados ao som cru das demos, que estranharam o trabalho mais elaborado do Kill ´Em All, especialmente nos vocais de James e na nova velocidade das músicas. Divergências à parte, a questão é que, exatamente como com o No Life ´Til Leather, o lançamento caiu como uma bomba na cena musical que nunca imaginava algo tão pesado lançado de forma oficial por alguma gravadora. A ótima repercussão abriu as portas para as bandas de Thrash Metal e a cena de San Francisco finalmente tinha algum retorno financeiro para seus representantes.

Zazula mostrou que tinha visão do negócio e, com o sucesso da primeira prensagem do álbum nos EUA, atraiu distribuidores para praticamente todos os cantos do mundo. Na Holanda e no Canadá, o álbum saiu pela Roadrunner, na Inglaterra pela Music for Nations, no Brasil, chegou pelas mãos da RGE, no Japão pela King e na França pela Bernett.
Para ajudar ainda mais na promoção, Johnny Z colocou no mercado também um single de 12’’ da música Whiplash. O disquinho vinha com 4 músicas: a versão oficial de Whiplash, mais uma remixada (cuja diferença é, honestamente, bem pequena) no lado A e no lado B as músicas Seek and Destroy e Phantom Lord, gravadas como se fossem ao vivo (com barulho falso de público – acredite se quiser), para mostrar a força do Metallica aos que ainda não tinham visto um show dos caras.

O sucesso do Kill ´Em All atravessou o Atlântico e pegou também os ingleses desprevenidos. A mesma cena da NWOBHM que inspirou o Metallica agora se rendia ao talento dos californianos e as vendagens do Kill ´Em All logo em seu lançamento representaram o maior sucesso desde a explosão do Iron Maiden (e o primeiro disco auto-intitulado) em 1980.

O Metallica ganhou em 1983 diversos prêmios na Terra da Rainha, desbancando até mesmo nomes de peso como o Piece of Mind do próprio Maiden. Naquele ano, a banda foi eleita a melhor pela tradicional revista Metal Forces onde também ganharam por melhor álbum e Kirk Hammett ganhou como melhor guitarrista. Ao saber do resultado, o irônico Dave Mustaine soltou o seguinte comentário “Kirk pegou um atalho para o número 1 por causa dos meus solos no No Life ´Til Leather”. Se analisarmos friamente, Mustaine até que tem um pouco de razão já que Kirk preferiu manter alguns dos solos originais, mesmo que negue isso até hoje.

Com o sucesso do Metallica e a boa divulgação do primeiro álbum, a Megaforce Records começou a receber diversas propostas de novas bandas interessadas na parceria como o próprio Anthrax, o Manowar e os ingleses do Raven. Zazula planejava a primeira turnê oficial dos californianos e resolveu escolher o Raven, que lançavam naquele mesmo período o ótimo All For One, para os shows em conjunto.


A escolha se mostrou perfeita pois, apesar dos ingleses serem vistos como uma grande piada em seu próprio país de origem (o som era popularmente conhecido como Athletic Rock por ser rápido mas não tão pesado como uma banda de Metal), o estilo energético da banda caía como uma luva com o som inovador do Metallica e o disco vendia bem na Terra do Tio Sam.
A Kill ´Em All For One Tour (mesclando o nome dos dois lançamentos das duas bandas) começou em 27 de Julho com um show em Nova Jersey e atravessou o país de costa a costa durante 3 meses. Todas as viagens eram feitas em um ônibus alugado por Zazula, aonde iam as duas bandas, alguns roadies e todo o equipamento. Até hoje o pessoal do Raven considera aquela turnê como o ponto alto da trajetória da banda e todos ainda demonstram muito carinho e respeito pelos integrantes do Metallica.
A turnê oficial do Kill ´Em All, agora somente com o Metallica, continuou um enorme sucesso até Janeiro de 1984 e foi em um desses últimos shows, mais precisamente em Boston, que todo o equipamento da banda foi roubado de dentro do ônibus, logo após a apresentação. Entre os itens roubados estava um amplificador Marshall muito querido por James desde sua adolescência. Esse fato foi um grande choque para o vocalista/guitarrista e serviu de inspiração para a música Fade to Black que sairia no segundo álbum.
Com o final da turnê pelos EUA, a banda partiu para seus primeiros shows internacionais na Europa, a chamada “Seven Dates of Hell”, e, de lá, se preparariam para a gravação do segundo álbum. Daí para frente todos conhecem a história do Metallica, a fama, a fortuna e os sucessos, e chego ao final deste artigo dos primórdios por aqui.
Muito obrigado a todos que acompanharam este texto e espero ter contribuído positivamente para que os fãs e simpatizantes conhecessem um pouco mais desse passado do Metallica e seus integrantes e a luta para que chegassem ao topo e ajudassem a levar o nome “Metal” até níveis inimagináveis, especialmente se pensarmos em todas as dificuldades enfretadas.

Se o Metallica ainda é ou não o dono da posição de maior banda de Metal, não importa, pois o nome que deixaram marcado na história do Rock e a revolução que causaram é algo digno de um estudo aprofundado. Portanto, antes de sair por aí xingando a banda, procure analisar melhor as influências que eles trouxeram até hoje no cenário mundial. Talvez sem o Metallica e a impulsão de toda a cena da Bay Area (como você deve imaginar, eles foram a grande locomotiva que puxou toda uma geração), a história do Heavy Metal fosse bem diferente.

Por: Debbie Alan Hetfield

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